Dor de Cabeça (Cefaleia) Enxaqueca e sinais de gravidade

Quem é que nunca teve uma dor de cabeça? No fim de um dia de trabalho stressante, ou após muitas horas à frente de um computador. A dor de cabeça é o nosso cérebro a dizer-nos que está quase no limite. O nome médico para a dor de cabeça é a cefaleia. No entanto, nem todas as causas da cefaleia são simples ou normais.

Enquanto algumas cefaleias são problemas ocasionais, há contudo dores de cabeça crónicas. As cefaleias podem distribuir-se por dois grupos: as cefaleias primárias e as secundárias.

Foto - Dor de Cabeça (Cefaleia) Enxaqueca e sinais

Cefaleias Primárias

Mais Comuns:

– Cefaleia de tensão
– Cefaleia em salvas
– Enxaqueca

Menos Comuns:

– Hemicrania continua – dor de cabeça unilateral persistente que responde bem á indometacina (um fármaco anti-inflamatório não esteróide (AINE), vulgarmente utilizado como um medicamento de prescrição para reduzir a febre, dor, rigidez e inchaço. A hemicrania continua é considerada uma cefaleia primária, o que significa que não é causada por nenhuma outra condição médica.

– Cefaleia nova diária e persistente
– Cefaleia do esforço
– Cefaleia da tosse
– Cefaleia por estímulo frio
– Hemicrania paroxística crônica

Cefaleias Secundárias

As cefaleias secundárias são aquelas provocadas por outras doenças, tais como traumatismos cranianos, AVC (acidente vascular cerebral), aneurisma cerebral, Trombose do Seio Cavernoso, meningites, cancros cerebrais, Herpes-zóster, ou arterite temporal.

Cefaleia de tensão

Esta é a mais comum das dores de cabeça, sendo estimado que mais de 99% das pessoas a sinta pelo menos uma vez na sua vida. Como o próprio nome indica, é originado pela tensão física ou emocional (ansiedade e estresse), e geralmente tem uma intensidade ligeira ou moderada.

De acordo com a frequência dos episódios de cefaleia de tensão por mês, existe uma classificação para o tipo de cefaleia de tensão:

– Cefaleia de tensão infrequente – 0 a 1 episódio por mês;
– Cefaleia de tensão frequente – 1 a 14 episódios por mês;
– Cefaleia de tensão crónica – superior a 15 episódios por mês.

Quanto á sua etiologia esta está geralmente associada a uma contracção sustentada dos músculos da cabeça e do pescoço, produzindo uma isquemia (diminuição no fluxo de sangue e oxigénio) no músculo contraído. Esta tensão muscular pode ser causada devido a uma postura incorrecta, uma exposição prolongada a situações de tensão, sociais ou psicológicas, ou seja, a reacções normais de fadiga. Este tipo de dor pode muitas vezes estar associada também a: Distúrbios do Sono, Transtornos afetivos, Estados de ansiedade e Dores no peito.

O tratamento para a cefaleia de tensão consiste na toma de um analgésico ou de um anti-inflamatório. No entanto, sendo medicamentos de fácil utilização, é muitas vezes automedicada, e não raramente, exagera-se na sua utilização. Esse exagero pode muitas vezes levar à tolerância desses medicamentos. Por isso, procure sempre a ajuda de um médico, que lhe indicará a correta maneira de lidar com a sua cefaleia de tensão.

Cefaleia em salvas

Esta dor de cabeça é bastante forte, sendo muito dolorosa. Não são frequentes, bem pelo contrário, e quando ocorrem, surgem em ciclos ou salvas. Esta dor é caracterizada por ocorre apenas num dos lados da cabeça, envolvendo a zona ocular. Esta cefaleia, mais comum nos homens, é geralmente acompanhada por conjuntivite, queda palpebral, lacrimejamento, sudorese facial, congestão nasal e inchaço do olho, no lado afetado.

Este tipo de cefaleia não tem uma tipologia bem definida de causas. No entanto, há provas de que o consumo de álcool e de tabaco podem ser motivos que ativem esta cefaleia. O seu tratamento consiste em administrar oxigénio e na toma de analgésicos.

A cefaleia em salvas ou de cluster é um tipo de dor de cabeça extremamente intensa e debilitante, não pulsátil, que tende a repetir-se na mesma área da cabeça, geralmente em torno da órbita. Normalmente ocorrem episódios repetidos de dor, com uma duração entre 15 e 180 minutos, interrompidos por fases de remissão de duração variável. Quanto ao seu tratamento, os analgésicos normalmente utilizados, tais como o paracetamol são geralmente de baixa eficácia.

Para episódios agudos de dor as seguintes terapias podem ser bastante úteis:

Administração de oxigénio a uma velocidade de, pelo menos, 7 litros por minuto, utilizando uma máscara, e por um período de tempo de pelo menos 15 minutos. Este tratamento mostrou-se eficaz em 78% dos pacientes que o utilizaram, e a sua utilidade foi demonstrada em vários estudos bem concebidos. Outras sugestões são o uso de Triptanos (grupo de fármacos com acção analgésica), como o sumatriptano e o zolmitriptano. Dihydroergotamine (fármaco da classe dos Alcalóides da Cravagem do Centeio) por injeção.

Como tratamento preventivo podem ser utilizados os seguintes fármacos:

Prednisona, uma droga que pertence ao grupo dos corticosteróides. Beta-bloqueadores como o atenolol. Bloqueadores do canal de cálcio, tais como o verapamil. Anticonvulsivantes, tais como o topiramato (nome comercial: Topamax). Carbonato de lítio – Esta substância é normalmente usada para tratar distúrbios psiquiátricos, como por exemplo o transtorno bipolar, mas também é eficaz como agente preventivo de cefaleia em salvas. E para terminar, podem ser usados antidepressivos, tais como a amitriptilina.

Enxaquecas

A enxaqueca é uma condição clínica caracterizada por dores internas na zona da cabeça, e que é provocada pela dilatação dos vasos sanguíneos que irrigam o tecido nervoso central adjacente. A dor caracteriza-se por ser latejante e intensa, afetando normalmente um dos lados da cabeça. Esta dor é geralmente acompanhada por náuseas, vómitos, fonofobia (intolerância ao som) e fotofobia (intolerância à luz).

Estes sintomas habitualmente duram 3 horas. No entanto, há relatos de pessoas que sofreram estes sintomas até 3 dias. A enxaqueca tem uma origem genética, onde existe uma predisposição para a cefaleia quando na presença de determinados fatores ambientais, como o som, a luz, poluição, certos alimentos, cheiros, etc.

Migraine (enxaqueca)

Esta doença ataca particularmente as mulheres, sendo 3 vezes mais comum nos elementos do sexo feminino, e acontece principalmente entre os 20 e os 40 anos. A grande maioria dos pacientes afetados por este problema recebeu dos pais o gene, já que esta é uma doença hereditária. Há ainda uma maior propensão em pessoas obesas.

Numa percentagem significativa de doentes com enxaqueca, 20%, ocorre um sintoma muito característico denominado de aura. Esta aura consiste em alguns indicadores neurológicos que irão aparecer antes do ataque de enxaqueca. Assim, geralmente o paciente vê pontos luminosos e sente um formigueiro numa certa parte do corpo.

Por vezes, surge associado à aura a perda parcial de visão e da fala, além de uma fraqueza muscular. A aura dura sensivelmente 20 minutos, ao fim dos quais começará a enxaqueca, desaparecendo todos os sintomas referidos. Por vezes, no entanto, a fraqueza muscular demora um pouco mais de tempo até se extinguir.

Animação da depressão alastrante cortical

Foto Acima: Animação de Depressão alastrante cortical – Uma onda de hiperactividade electrofisiológica seguida por uma onda de inibição, normalmente no córtex cerebral ou córtex visual.

Os escotomas cintilantes  (formas comuns de aura na enxaqueca) podem estar relacionados com o fenómeno neurofisiológico chamado “depressão alastrante cortical“, um fenómeno electrofisiológico do sistema nervoso central descoberto pelo notável cientista e biólogo Brasileiro Aristides de Azevedo Pacheco Leão, um dos fundadores do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os mecanismos bioquímicos que determinam que uma pessoa é susceptível a ter episódios de enxaqueca ainda não foram totalmente desvendados. Existe um componente genético claro, no entanto, ainda não se conseguiu determinar qual o gene responsável pela doença (provavelmente envolve vários genes diferentes, daí a gravidade dos sintomas, e outras manifestações  clínicas relacionadas com o sistema nervoso central, como por exemplo distúrbios visuais).

A única exceção é uma forma rara da doença chamada “enxaqueca hemiplégica familiar“, em que foi determinado que não é exatamente uma mutação no cromossomo 19 o responsável pelo seu aparecimento.

Tratamento não farmacológico: Recomenda-se alguma regularidade nos padrões de vida, nas horas de sono e nas refeições. Sugere-se também a pratica de exercício físico, evitar o estresse e o consumo excessivo de alimentos que podem atuar como fatores desencadeantes de crises.

Tratamento de crises: Os medicamentos que têm mostrado ser eficazes e os mais utilizados, são os anti-inflamatórios não-esteroides (Ex: naproxeno e ibuprofeno), os triptanos e a ergotamina (alcalóide vasoconstritor).

Medicação preventiva: No caso em que as dores ocorram mais de duas vezes por semana, recomenda-se o uso diário de certos medicamentos que atuam como preventivos, isto é, não são úteis quando a enxaqueca já está presente, mas quando tomados diariamente como prescritos pelo médico, são capazes de reduzir o número de episódios. Os medicamentos utilizados como preventivos pertencem a classes e famílias farmacológicas bastante distintas, e incluem:

– Beta-bloqueadores, incluindo o propranolol, atenolol, metoprolol e timolol. – Bloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio, principalmente a flunarizina. – Antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina. – Anticonvulsivantes, tais como o ácido valpróico e o topiramato.

Medicamentos sobre investigação: Telcagepant – O Telcagepant é uma droga experimental para a enxaqueca. Foram realizados vários estudos para avaliar a sua eficácia em humanos, mas a sua continuidade foi adiada por tempo indeterminado. O Telcagepant, anteriormente conhecido como MK-0974, é um antagonista do receptor de peptídeo liberador de gastrina (GRPR)relacionado com o gene da calcitonina (CGRP), o qual é administrado por via oral, pesquisado ​​e desenvolvido pela Merck & Co.

De acordo com os resultados do estudo, as taxas globais de eventos adversos foram similares ao placebo. Os novos dados foram apresentados em Londres, no European Headache and Migraine Trust International Congress.

Outros tratamentos:

NeuroestimulaçãoA neuroestimulaçãopode ser uma alternativa de tratamento, especialmente quando existem contra-indicações para o uso de triptanos.

Biofeedback – O biofeedback é uma terapia que permite que o paciente se torne ciente de função dos órgãos. Este método tem mostrado ser bastante eficaz em alguns casos.

Acupuntura

A eficácia da acupuntura no tratamento da enxaqueca tem sido avaliada á vários anos. Após vários estudos, concluiu-se que a acupunctura na profilaxia da enxaqueca tem menos efeitos colaterais e é tão eficaz como a profilaxia médica convencional. “Curiosamente“, o correto posicionamento das agulhas da acupuntura não importa. Não foi encontrada qualquer diferença entre os pontos meridianos chineses em comparação com outros pontos. Por estas razões, a acupuntura é hoje recomendada pela maioria dos especialistas como uma opção de tratamento.

Fitoterapia

Butterbur (Petasites hybridus)

Os seus usos na medicina popular incluem aplicações como diurético, relaxante muscular, tosse, febre, feridas, gagueira, dores de cabeça, asma e estresse. Nem todos estes usos referidos são apoiados por pesquisas científicas, mas alguns testes preliminares realizados com a raiz da planta comprovaram a sua eficácia na redução da frequência e gravidade dos ataques de enxaqueca.

Common-Butterbur-Petasites-hybridus

Sinais de alarme

Como referimos mais acima, existem cefaleias primárias, sendo a dor de cabeça a doença em si, e as cefaleias secundárias, quando as dores de cabeça são um sintoma de outra doença mais grave. Contudo, sendo a cefaleia um dos sintomas mais frequentes e abrangentes, nem sempre se consegue distinguir se é primária ou secundária.

Dessa forma, de seguida apresentamos alguns sinais de alarme a que deve estar atento, e que poderão indicar alguma doença subjacente. Se sentir algum destes sinais de alarme, deverá consultar um médico.

– Se tiver pela primeira vez uma dor de cabeça muito forte e muito intensa.

– Uma cefaleia violenta e súbita, que ao fim de poucos segundos já atingiu a sua intensidade máxima. Apesar de as cefaleias em salva ter esta mesma característica, esta tem outros sintomas associados. Se apenas sentir esta dor de cabeça fortíssima, sem mais qualquer sinal, poderá indicar a rutura de um aneurisma ou uma trombose venosa.

– Se a dor de cabeça for acompanhada por febre alta e rigidez na nuca, pode ser indicador de meningite.

– Se as dores de cabeça que sente habitualmente mudarem a sua intensidade ou os sintomas que normalmente as acompanham, poderá ser sinal de alguma doença mais grave.

– Se, apesar de ter geralmente dores de cabeça, ter um episódio que poderia definir com a pior dor de cabeça que já teve em toda a sua vida, essa ocorrência será preocupante e deverá consultar o seu médico.

– Se as dores de cabeça surgirem após um traumatismo, já que há o risco de haver uma hemorragia intracraniana.