Síndrome de Gilbert, Crigler-Najjar e Dubin-Johnson

O fígado é um órgão com múltiplas funções essenciais para o organismo, sendo a maior glândula de todo o corpo. Se usássemos um termo menos formal, podíamos até dizer que o fígado é a “fábrica” do corpo humano. Na realidade, o fígado produz um grande conjunto de secreções e enzimas, fundamentais para o funcionamento do corpo.

Este órgão, o segundo maior do organismo, funciona como uma glândula endócrina (produz e liberta substâncias no sangue) e como uma glândula exócrina (produz e liberta secreções através de canais próprios para superfícies internas ou externas). Mesmo lesionado, o fígado não interrompe a sua função, tendo a capacidade de se autorregenerar.

Uma das funções do fígado é metabolizar as bilirrubinas. Esta substância é um pigmento resultante da destruição das hemácias em fim de vida no baço. Assim, antes de ser excretado através das fezes, o fígado tem a responsabilidade de metabolizar a bilirrubina.

Contudo, se o fígado falhar nessa função, a bilirrubina não é destruída, aumentando a sua concentração no sangue, o que irá originar a sua acumulação e depósito na pele, tornando-a amarelada. A esta condição dá-se o nome de icterícia.

Neste artigo iremos abordar três doenças genéticas que irão alterar o funcionamento do fígado. Assim, devido às síndromes de Gilbert, Crigler-Najjar e Dubin-Johnson, o fígado perderá a sua capacidade de metabolizar as bilirrubinas, originando assim um quadro de icterícia.

Ictericia

Icterícia

A icterícia, consequência comum a todas as doenças abordadas neste artigo, é então uma condição em que as mucosas e a pele adquirem um tom amarelado, devido à acumulação da bilirrubina no organismo (hiperbilirrubinemia). Esta condição ocorre frequentemente nos bebés recém-nascidos, sendo algo normal e facilmente resolvido.

Já em adultos, é sinal de doença. Como referimos anteriormente, a bilirrubina é um pigmento biliar, resultado na destruição das hemácias envelhecidas.

Existem dois tipos de bilirrubina: a bilirrubina direta ou conjugada, e a bilirrubina indireta ou não conjugada.

A bilirrubina direta ou conjugada resulta da metabolização da bilirrubina indireta ou não conjugada no fígado, sendo depois libertada no intestino através da bílis, onde será alvo de degradação por parte das bactérias intestinais. Depois, parte dessa bilirrubina é excretada através das fezes, e outra parte é reabsorvida através das paredes do intestino, sendo mais tarde eliminada através da urina.

A bilirrubina indireta ou não conjugada é aquela que não foi metabolizada pelo fígado, e que em caso de falha no funcionamento hepático, irá depositar-se na pele e provocar icterícia.

Síndrome de Gilbert

A síndrome de Gilbert é uma doença genética que afeta entre 5 a 10% da população mundial, e que se caracteriza pela deficiência na produção da enzima glucoronil transferase. Devido a um defeito no gene UGT1A, o fígado não consegue produzir devidamente esta enzima, responsável pela metabolização da bilirrubina indireta ou não conjugada. Com uma redução expressiva nesta metabolização, os níveis da bilirrubina não metabolizada aumentam significativamente, resultando numa acumulação deste pigmento no organismo, e consequentemente, em icterícia.

Sintomas

Os sintomas da Síndrome de Gilbert podem incluir:

– Icterícia (na pele, debaixo das unhas, nos olhos, e nas mucosas da boca);
– Urina matinal mais escura;
– Fadiga e cansaço;
– Fraqueza;
Dores na zona abdominal;
– Enjoos;
– Vómitos;
– Intolerância à gordura;
– Perda de apetite;
– Tonturas;
– Dificuldade de concentração;
– Síndrome do intestino irritável.

Diagnóstico

A síndrome de Gilbert não é uma doença facilmente diagnosticada. Devido ao facto de se manifestar especialmente durante esforço físico intenso, estresse em excesso, febre ou doença que cause febre, menstruação ou em alturas com jejum prolongado, é difícil não associar muitos dos sintomas atrás descritos a estas condições.

Tratamento

A síndrome de Gilbert é uma doença benigna, que não tem grandes consequências a nível de saúde. Como tal, na maioria dos casos, não há necessidade de tratamento. A expectativa de vida para doentes com esta síndrome é normal, não sendo uma doença que aumente o risco de aparecimento de outras doenças hepáticas. Eventualmente, em alturas em que apareça icterícia, poderão ser tomadas algumas medidas para resolver essa situação.

Prevenção

Como referimos atrás, esta é uma doença genética. Como tal, não existe qualquer forma de prevenir o seu aparecimento. Contudo, através de alguns cuidados, é possível evitar algumas complicações. Assim, de forma a evitar ocorrências de icterícia, os indivíduos com esta síndrome são aconselhados a não fazer jejum, ou qualquer dieta restritiva, a hidratar corretamente, a tentar evitar situações de grande stress ou esforço físico elevado, ou também, a evitar noites com poucas horas de sono.

Sendo a febre ou doenças febris um fator de risco, quaisquer doenças infecciosas devem ser tratadas rapidamente, e se possível, precocemente. Os pacientes com a síndrome de Gilbert deverão ter uma dieta equilibrada, pobre em gordura, e com muita água. As bebidas alcoólicas devem ser evitadas.

Nalguns casos pode ser necessário a toma de vitaminas. Relativamente a medicamentos, há alguns que podem aumentar significativamente o risco de um ataque de icterícia, nomeadamente o irinotecano, usado no cancro do intestino, entre outros, o indinavir e o atazanavir, usado em pacientes com SIDA, e o gemfibrozil, usado no controlo do colesterol.

Síndrome de Crigler-Najjar

Esta síndrome é uma doença genética rara, caracterizado por um distúrbio no metabolismo da bilirrubina. Esse distúrbio irá provocar que a bilirrubina indireta não seja devidamente metabolizada, e dessa forma, originar um aumento da concentração deste pigmento no sangue. Daí resulta icterícia, mas nalguns casos, pode mesmo levar a lesões cerebrais. Existem dois tipos de síndrome de Crigler-Najjar: tipo 1 e tipo 2.

Tipo 1

Esta é a forma mais rara desta síndrome, apenas surgindo em menos de uma pessoa por cada milhão de indivíduos. Esta doença está ligada à hiperbilirrubinemia não conjugada neonatal e ao kernicterus (condição resultante da toxicidade provocada pela acumulação de bilirrubina em várias zonas do cérebro).

Um indivíduo portador desta doença, nos primeiros dias da sua vida, sofre de icterícia intensa. Hoje em dia, há várias formas de tratamento para esta síndrome, entre as quais: fototerapia durante 12 horas por dia, transfusão de sangue urgente (nos primeiros dias de vida), toma via oral de fosfato e carbonato de cálcio, toma de inibidores de heme-oxigenase (controlo da hiperbilirrubinemia), e transplante hepático.

No caso dos pacientes recém-nascidos, a fototerapia veio reduzir significativamente a mortalidade causada pela encefalopatia da bilirrubina (kernicterus).

Tipo 2

Esta é a forma mais leve da síndrome de Crigler-Najjar, já que a concentração de bilirrubina no sangue é menor que no tipo 1. Também chamada de síndrome de Arias, o tipo 2 não resulta em acumulações tão tóxicas como no tipo 1, e como tal, é muito raro o desenvolvimento de kernicterus.

O sintoma principal continua a ser a icterícia, mas neste caso, não tão intensa como no tipo 1, e dessa forma, com menores consequências nos órgãos. Ao contrário da forma mais grave da Síndrome de Crigler-Najjar, aqui o tratamento com fenobarbital resulta, o que geralmente leva a uma redução da concentração de bilirrubina no sangue na ordem dos 25%.

Síndrome de Dubin-Johnson

Esta síndrome é uma doença genética bastante rara, e que é principalmente caracterizada por episódios de icterícia durante a vida. O início da manifestação da doença varia de pessoa para pessoa, não tendo por isso uma idade certa para isso ocorrer. Por vezes, a doença surge ainda na infância, mas apenas manifesta-se na fase adulta.

Tal como as doenças atrás referidas, também esta síndrome vai diminuir a capacidade de metabolização hepática da bilirrubina. Os pacientes com esta síndrome podem ver a sua icterícia agravada por vários fatores, entre os quais a gravidez ou a toma de pílula anticoncecional (no caso específico das mulheres), fatores ambientais, quadros infecciosos e a toma de bebidas alcoólicas.

Sintomas

Na síndrome de Dubin-Johnson, o único sintoma manifestado é a icterícia. A única coisa que pode variar é a intensidade da icterícia.

Como diagnosticar

Esta síndrome normalmente é descoberta com o aparecimento de episódios de icterícia. No entanto, há um conjunto de exames que ajudam nesse diagnóstico, entre os quais uma biópsia ao fígado, mas também, análises aos níveis de bilirrubina, níveis urinários de coproporfirina, e ainda, aos níveis das enzimas responsáveis pela metabolização da bilirrubina.

Tratamento

Não existe cura ou sequer tratamento indicado para a síndrome de Dubin-Johnson.